FICHAMENTO
O texto abaixo é um fichamento com fragmentos do texto CIBERCULTURA. Alguns pontos para compreender a nossa época, do autor André Lemos.
“A
cibercultura é a cultura contemporânea marcada pelas tecnologias digitais.
Vivemos já a cibercultura. Ela não é o futuro que vai chegar mas o nosso
presente (home banking, cartões inteligentes, celulares, palms,
pages, voto eletrônico, imposto de renda via rede, entre outros).”
“A cibercultura nasce no desdobramento da relação da
tecnologia com a modernidade que se caracterizou pela dominação, através do
projeto racionalista iluminista, da natureza e do outro. Se para Heidegger
(Heidegger, 1954) a essência da técnica moderna estava na requisição
energético-material da natureza para a livre utilização científica do mundo, a
cibercultura seria uma atualização dessa requisição, centrada agora na
transformação do mundo em dados binários para futura manipulação humana
(simulação, interatividade, genoma humano, engenharia genética, etc.).”
“A partir da década de sessenta, a emergências de
novas formas de sociabilidade vão dar outros rumos ao desenvolvimento
tecnológico, transformando, desviando e criando relações inusitadas do homem
com as tecnologias de comunicação e informação.”
“Cada transformação midiática altera nossa percepção
espaço temporal, chegando na contemporaneidade a vivenciarmos uma sensação de
tempo real, imediato, “live”, e de abolição do espaço físico-geográfico. A
sociedade da informação é marcada pela ubiqüidade e pela instantaneidade,
saídas da conectividade generalizada. [...] O tempo real pode inibir a
reflexão, o discurso bem construído e a argumentação. Por outro lado o clique
generalizado permite a potência da ação imediata, o conhecimento simultâneo e
complexo, a participação ativa nos diversos fóruns sociais.”
“A nova dinâmica técnico-social da cibercultura
instaura uma estrutura midiática ímpar na história da humanidade onde, pela
primeira vez, qualquer indivíduo pode, a priori, emitir e receber informação em
tempo real, sob diversos formados e modulações (escrita, imagética e sonora)
para qualquer lugar do planeta.”
“Esse fenômeno inédito alia-se ainda a uma
transformação fundamental para a compreensão da cibercultura, a saber, a
transformação do computador pessoal e um instrumento coletivo e deste ao
coletivo móvel (com a atual revolução do “Wi-Fi”, que será com certeza a nova
etapa da cibercultura).”
“A nova estrutura técnica contemporânea nos leva em
direção à uma interface zero, onde a ubiqüidade se generaliza para entrar no
coração dos objetos e proporcionar nomadismos radicais.”
“Embora os diversos fenômenos da cibercultura tenham
sofrido um crescimento exponencial em números de pessoas com poder de acesso à
era da conexão, como afirma Pierre Lévy, o fenômeno é ainda minoritário (Lévy,
1997). No entanto, o mesmo deve ser compreendido como hegemônico, como assim o
foi durante toda a história do desenvolvimento dos diversos instrumentos
midiáticos. A exclusão digital é um fato, embora não seja a única em países
como o Brasil.”
“A cibercultura nos coloca também diante de
problemas lingüísticos e conceituais e não é por acaso a crescente utilização
de metáforas para descrevermos os seus diferentes fenômenos. [...] Vários
conceitos emergem associados às novas tecnologias mas tratar-se-ia de
atualizações de experiências comuns em diversas atividades humanas, como a
idéia de interatividade, de simulação, de site (sítio), de virtual?”
“A novidade do fenômeno nos traz o desafio de
delimitarmos melhor os conceitos para podermos vislumbrar as diferenças e
similitudes com fenômenos técnico-mediáticos anteriores.”
“Precisamos hoje de um esforço conceitual para
delimitarmos melhor o campo e vislumbrarmos as verdadeiras conseqüências da
cibercultura.”
“Podemos dizer que a Internet não é uma mídia no
sentido que entendemos as mídias de massa. Não há fluxo um - todos e as
práticas dos utilizadores não são vinculadas à uma ação específica.”
“A cibercultura é recheada de novas maneiras de se
relacionar com o outro e com o mundo. Não se trata, mais uma vez, de
substituição de formas estabelecidas de relação social (face a face, telefone,
correio, espaço público físico), mas do surgimento de novas relações mediadas.”
“Muito se tem falado do anonimato e da ausência de
referência física como um dos fatores principais dessas novas práticas sociais.
[...] Obviamente que questões inéditas surgem comprovadas através de certo
lastro empírico, mas as diferenças devem ser matizadas já que várias práticas
guardam similitudes com as formas sociais e os papéis que desempenhamos no dia
a dia fora da rede. A relação face a face guarda similitudes com as relações online.”
“A arte na cibercultura vai abusar da
interatividade, das possibilidades hipertextuais, das colagens (sampling) de
informações (bits), dos processos fractais e complexos, da não linearidade do
discurso... A arte passa a reivindicar, mais do que antes, a idéia de rede, de
conexão, tranformando-se em uma arte da comunicação eletrônica. O objetivo é a
navegação, a interatividade e a simulação para além da mera exposição/audição.”
“Na era da cibercultura o corpo é pura informação. O
projeto Genoma Humano que parte do princípio de que nosso corpo é fruto de
diversas combinações de informação ao nível dos genes está em sintonia com a
era da informação.”
“O corpo sempre foi um constructo cultural e está
imbricado no desenvolvimento da cultura. Nesse sentido, o corpo da cibercultura
é um corpo ampliado, transformado e refuncionalizado a partir das
possibilidades técnica de introdução de micro-máquinas que podem auxiliar as
diversas funções do organismo. Assim próteses nanotecnológicas regidas pelas
tecnologias digitais podem ampliar e reformular funções ortopédicas, visuais,
cardíacas, entre outras.”
“Na cibercultura, entramos na fase de colonização
interna do corpo com próteses e nano máquinas, correlata à explosão de
transformações subjetivas através dos atuais piercings, tatoos, ou formas
extremas de androgenia.”
“As questões políticas da era da informação estão
afetando tanto incluídos como excluídos do mundo digital. Diversas formas de
controle estão hoje em voga de forma a nos vigiar de maneira quase
imperceptível, instaurando um verdadeiro panopticom eletrônico. [...] Várias
formas de ação política são atualmente praticadas tendo como objetivo alertar a
população e impedir ações que atingem a liberdade de expressão e a vida
privada.”
“A cibercultura instaura um espaço de fluxos
planetário de informações binárias que trazem à tona uma nova problematização
dos espaços de lugar nas cidades contemporâneas.”
“[...] Vivemos já na cibercidade, trazendo novas
questões na intersecção entre o lugar e o fluxo. Aqui surgem questões como a
cibercidadania, a ciberdemocracia, a exclusão e inclusão digital.”
“Assim, devemos repensar o uso das novas tecnologias
da cibercultura no espaço urbano.”
“[...] gostaríamos de chamar a atenção para o que
parece ser algumas leis da cibercultura. Essas leis podem ser úteis para as
diversas análises sob os variados aspectos da sociedade contemporânea.”
“Uma primeira lei seria a lei da Reconfiguração.
Devemos evitar a lógica da substituição ou do aniquilamento. Em várias
expressões da cibercultura trata-se de
reconfigurar
práticas, modalidades midiáticas, espaços, sem a substituição de seus
respectivos
antecedentes.”
“A segunda lei seria a Liberação do pólo da emissão.
As diversas manifestações socioculturais contemporâneas mostram que o que está
em jogo como o excesso de informação nada mais é do que a emergência de vozes e
discursos anteriormente reprimidos pela edição da informação pelos mass
media.”
“A terceira lei é a lei da Conectividade
generalizada que começa com a transformação do PC em CC, e desse em CC móvel.
As diversas redes socio-técnica contemporâneas mostram que é possível estar só
sem estar isolado. [...] Nessa era da conexão o tempo reduz-se ao tempo real e
o espaço transforma-se em não-espaço, mesmo que por isso a importância do
espaço real, como vimos, e do tempo cronológico, que passa, tenham suas
importâncias renovadas.”
“O imaginário do século XXI, construído no século
passado, colocava-nos em meio a uma certa fascinação com robôs e máquinas
voadoras em um mundo asséptico, ao mesmo tempo que nos alertava quanto os
horrores do controle maquínico da vida humana, da perda das relações sociais
autênticas e de um afastamento perigoso da natureza.”
“Devemos tentar compreender a vida como ela é e
buscar compreender e nos apoderar dos meios sócio-técnicos da cibercultura.
Isso garantirá a nossa sobrevivência cultural, estética, social e política para
além de um mero controle maquínico do mundo. Para os que sabem e querem olhar,
nas diversas manifestações socioculturais da cibercultura contemporânea podemos
constatar que ainda há vida para além da articialização total do mundo.”
Adriana Ribeiro Ferreira
Adriana Ribeiro Ferreira
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