sábado, 26 de março de 2016



Este é um fichamento do texto “A co-laboração na/em Rede” de Lynn Alves, Ricardo Japiassu e Tânia Maria Hetkowski, o qual apresenta algumas considerações acerca do conceito de co-laboração na perspectiva da Teoria Histórico-cultural, etc.

“A Galáxia de Gutemberg vem sendo, nos últimos quarenta anos, invadida por uma nova forma de comunicar, de produzir conhecimentos e saberes - a comunicação através das redes digitais e, em especial, da Internet que, desde as experiências iniciais da Arpanet (EUA) e do Minitel (França), vem crescendo vertiginosamente. [...]”.
“A aldeia global, concebida por McLuhan e Powers, nas décadas de 1960 e 1970, possui hoje uma outra configuração, muito mais interativa, possibilitando a emergência das chamadas comunidades de aprendizado. [...]essas comunidades se constituem em agregações sociais que surgem na Internet formada por interlocutores invisíveis que podem ter interesses que vão do conhecimento científico ao conhecimento espontâneo, utilizando esses espaços para trocas intelectuais, sociais, afetivas e culturais,[...]”.
“A emergência destas comunidades pode configurar o que Lèvy denomina de uma inteligência coletiva, que se constrói no ambiente da/em Rede , mediante uma necessidade pontual dos seres humanos, que intercambiam seus saberes, trocando e construindo novos conhecimentos, [...]”.
“É importante revelar que o entendimento do processo de construção co-laborativa do conhecimento cuja ênfase recai em suas origens sociais e históricas, isto é, num conhecer orientado inicialmente no sentido do coletivo para o sujeito, não emerge apenas com o amplo uso instrumental das mídias telemáticas na Educação [...]”.
“Na perspectiva cultural de interpretação do desenvolvimento humano portanto é a partir das complexas interrelações sociais (microgênese) e históricas (macrogênese), obrigatoriamente MEDIADAS pelo uso instrumental das ferramentas e signos ao longo da filogênese (percurso evolutivo inter-espécies) e da ontogênese (percurso desenvolvimental intra-espécie), que se criam enfim as condições materiais e imateriais para a co-laboração das funções psíquicas "superiores" [...]”.
“Os saberes práticos, as (in)formações e os conhecimentos empíricos e científicos co-laborados e em co-laboração pelo sujeito só podem ser viabilizados unicamente através da MEDIAÇÃO CULTURAL (ferramentas e signos) - que interpõe-se necessariamente entre TODAS as suas interações sociais nos diferentes coletivos (nível interpsíquico) nos quais ele/ela atua e com os quais dialoga e se relaciona”.
“A prática pedagógica, quando mediada pelas TIC, altera a função educacional do professor e a sua compreensão do contexto educativo - o qual é necessariamente (in)formado por diversas outras práticas cotidianas (política, ética, econômica etc). Essas práticas orientam e deflagram as ações dos professores e imprimem significados à vida profissional dos docentes. [...]”.
“Alguns obstáculos que se interpõem à prática pedagógica do professor podem ser: (1) o ensino é interpretado como uma atividade seletiva; (2) o contexto organizacional desse ensino faz com que os professores desenvolvam trabalhos individuais e não coletivos; (3) as lógicas de socialização profissional não acontecem em momentos apropriados ao desenvolvimento de atitudes reflexivas; (4) as TIC e os materiais didáticos são gerados a partir de uma lógica hierárquica vertical, [...]”.
“Portanto, as TIC entram na escola como dispositivos técnicos e as práticas pedagógicas continuam pautadas em velhos paradigmas, apenas com uma diferença: retira-se a centralidade do professor transferindo-a para as TIC. [...]”.
“[...]Considerar a prática co-laborativa como potencialidade de reflexões do e para o(a) professor(a) significa compreender que as questões educacionais são também questões políticas, sociais, culturais etc. [...]”.
“Considerando que tanto na sociedade como na escola o(a) professor(a) encontra toda uma série de instrumentos que podem ser potencializados através da sua prática pedagógica, ele(a) - professor(a) - pode compartilhar e efetivar mudanças recorrendo à  riqueza das práticas coletivas oportunizadas pelo ciberespaço. [...]”.
“Apesar da grande proliferação de comunidades virtuais de aprendizado na/em Rede, constata-se ainda, na escolarização, a existência de resistências e dificuldades de convivência com esta modalidade de interação/comunicação mediada por computadores interconectados à Internet”.
A literatura especializada costuma justificar a "recusa" de educadores e educandos em fazerem uso deste tipo de ambiente para promoção da atividade co-laborativa atribuindo-a, basicamente, a três fatores: (1) os sujeitos têm que aprender a lidar com a diferença, o que sempre é algo complexo; (2) esses ambientes solicitam posturas intelectuais autônomas e processos co-laborativos de/em grupo (algo que a escolarização tradicional tem falhado em promover); e (3) as pessoas necessitam apropriar-se dos recursos informáticos e suportes tecnológicos - o que, para muitos, é algo novo e ainda distante das suas competências econômicas e culturais”.
Apesar dos discursos co-laboracionistas renovadores e dos avanços pedagógicos já alcançados pelo desenvolvimento de novas práticas de ensino-aprendizado com o uso das TIC, a atividade co-laborativa permanece sendo um desafio à educação formal em e-coletivos”.
“[...] é só do confronto entre as dimensões formal e informal da Educação que podem emergir e se concretizarem práticas instituintes potencializadoras do aprendizado on-line e da atividade co-laborativa”.
 “A atividade pedagógica mediada pelas redes digitais proporciona então a criação de novas práticas instituintes. Mas, embora a atividade pedagógica instituinte tenha raízes nas práticas educacionais já institucionalizadas, ao mesmo tempo, contraditoriamente, apresenta-se como desafio ao status quo . [...]”.
“[...]Promover o auto-aprendizado e portanto o pensamento crítico do sujeito - no sentido de fazê-lo ir além do senso comum - tem ocasionado, com alguma freqüência, a emergência de uma nova categoria "estatística" nos processos formais de EaD: os "evadidos on-line."”
“Cotidianamente vemos emergir novas CVAs na/em Rede (WEB). Contudo, observa-se que os agrupamentos de sujeitos mediados pelas TIC tendem a desaparecer com a mesma rapidez com que surgem. Acredita-se que isso ocorra em razão de, no âmbito desses e-coletivos, não serem promovidas práticas genuinamente co-laborativas[...]”.
“Sustentar o desejo para manter e preservar a co-laboração de/em uma CVA exige o exercício contínuo da autonomia. [...]”.
“[...] Essa dificuldade em ousarmos ser autores dos nossos próprios enunciados, em nos "autorizarmos" pode, de fato, estar relacionada ao tipo de educação que tivemos oportunidade de vivenciar em nossas vidas. [...]”.
“Ao nos "comportarmos" de acordo com o pensamento único e hegemônico, acabamos por fazer vingar plenamente, quase sempre de modo inconsciente, em nossos corpos e mentes, a perversa ideologia dominante da fase neoliberal do capitalismo na contemporaneidade. [...]” .
“Na configuração política, social, econômica e educacional excludente atual, típica da pós-modernidade, a co-laboração em/na Rede pode ser, contraditoriamente, uma alternativa às tradicionais práticas autoritárias que têm caracterizado as relações de poder nas organizações e empreendimentos educativos no capitalismo tardio”.
“[...] A emergência das TIC como poderosas ferramentas mediadoras das relações humanas na contemporaneidade apenas oferece maior visibilidade à natureza difusa e não necessariamente escolar da Educação”.
“A co-laboração na/em Rede, sem dúvida, pode contribuir para a emancipação do sujeito engajando-o em um genuíno processo de construção autônoma de novos conhecimentos e saberes. [...]”.
“Os sujeitos em CVAs que promovem a co-laboração são potencialmente pares, co-autores e co-construtores de inúmeros processos de criação, atuação e significação. [...]”.
“A co-laboração portanto implica o desenvolvimento de processos interacionistas que visam encorajar os sujeitos a atuarem em conjunto para a construção de diferentes conhecimentos e saberes, enfatizando a co-autoria (DIAS).”
“Os processos co-laborativos costumam ser permeados por trocas contínuas e pela socialização de diferentes olhares e argumentações. Neste sentido, não existe apenas um sujeito que ocupe o lugar de educador ou que detenha a posse exclusiva do conhecimento; todos se revezam nos papéis de educadores e educandos [...]”.
“A atividade co-laborativa genuína só pode ocorrer a partir da premissa da interatividade - interatividade aqui entendida de modo a ultrapassar a relação solitária do sujeito com as interfaces e seus agentes humanos e artificiais. [...]”.
“Portanto, no sentido que interessa aqui, a interatividade deve ser compreendida como a possibilidade de o usuário participar ativamente, interferindo no processo de ensino-aprendizado com ações, reações, intervenções, [...]”.
“A interatividade assim entendida - de modo amplo - nos permite avançar pedagogicamente em relação ao modelo instrucionista do tipo broadcast - que apoia-se em pólos transmissores para a distribuição unilateral das mensagens à muitas pessoas em diferentes locais, simultaneamente. [...]”.
“A interatividade e a interconectividade, possibilitadas e incrementadas pelas tecnologias digitais e pela cultura da simulação, típica das comunidades virtuais, vêm contribuindo sem dúvida para a instauração daquela "outra" lógica à qual já nos referimos, e que caracteriza tanto o fast thinking (pensamento ágil "multimídico") como o pensamento complexo (ou "conhecimento hipertextual")”.
“Atuar co-laborativamente vai além de tomar parte nos desgastados "trabalhos em grupo" - que tiveram ampla divulgação com a difusão, penetração e corruptela das idéias renovadoras da Escola Nova nas práticas educacionais nacionais. [...]”.
“A escola do trabalho [Escola Nova] é a escola em que a atividade é aproveitada como um instrumento ou meio de educação [...] A escola nova se propõe, por uma forma de vida e de trabalho em comum, a ensinar a viver em sociedade e a trabalhar em cooperação”.
“Para Charles Crook, em nossos intercâmbios habituais com outras pessoas, cotidianamente, constatamos que (1) a atividade cognitiva é interpretada como um conjunto de sistemas funcionais , [...] (2) a cognição é “situada”[...] e (3) a cognição possui caráter social em duplo sentido : os elementos mediadores (signos) se criam e evoluem a partir de um contexto sociocultural e, inversamente, o uso de signos e os processos de significação (de construção de sentidos por parte do sujeito) vinculam-se ao contexto circunstancial das suas/nossas interações”.   
“Pode–se afirmar, sem receio, que a atividade co-laborativa atua na zona de desenvolvimento proximal (ZDP) da comunidade de aprendizado em razão de os participantes do grupo - com suas singulares competências - auxiliarem-se uns aos outros na qualidade de membros mais experientes de diferentes círculos de conhecimento e variadas práticas culturais”.
“O que distingue a atividade co-laborativa da atividade cooperativa em uma CVA reside na natureza “híbrida” ou intercultural (provisória) do processo coletivo de construção de conhecimentos e saberes – o que sem dúvida encontra-se muito além da simples existência de interação e intercâmbio de informações entre os membros do grupo”.  
 “[...] conclui-se facilmente que a atividade co-laborativa (trabalho colaborativo) pressupõe (1) a formação/promoção de grupos heterogêneos, evitando-se – sempre que for possível – agruparem-se os sujeitos reiteradamente com pessoas com as quais ele(a) já mantêm vínculos sociais; (2) a busca do alcance dos objetivos pessoais e do e-coletivo; (3) a interdependência não hierarquizada entre os membros do grupo como forma de incentivo à um genuíno aprendizado”.

“[...] a atividade co-laborativa (o trabalho colaborativo) pode converter-se em poderoso recurso metodológico para a implementação de empreendimentos pedagógicos à distância na/em Rede. [...]”



Adriana Ribeiro Ferreira

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