Este
é um fichamento do texto “A co-laboração na/em Rede” de Lynn Alves, Ricardo
Japiassu e Tânia Maria Hetkowski, o qual apresenta algumas considerações acerca
do conceito de co-laboração na perspectiva da Teoria Histórico-cultural, etc.
“A Galáxia de Gutemberg vem sendo, nos últimos quarenta anos,
invadida por uma nova forma de comunicar, de produzir conhecimentos e saberes -
a comunicação através das redes digitais e, em especial, da Internet que, desde
as experiências iniciais da Arpanet (EUA) e do Minitel (França), vem crescendo vertiginosamente. [...]”.
“A aldeia global, concebida por McLuhan e Powers, nas décadas de 1960 e 1970, possui
hoje uma outra configuração, muito mais interativa, possibilitando a emergência
das chamadas comunidades de aprendizado. [...]essas comunidades se constituem em
agregações sociais que surgem na Internet formada por interlocutores invisíveis
que podem ter interesses que vão do conhecimento científico ao conhecimento espontâneo,
utilizando esses espaços para trocas intelectuais, sociais, afetivas e
culturais,[...]”.
“A emergência destas comunidades pode configurar o que Lèvy
denomina de uma inteligência coletiva, que se constrói no ambiente da/em Rede ,
mediante uma necessidade pontual dos seres humanos, que intercambiam seus
saberes, trocando e construindo novos conhecimentos, [...]”.
“É importante revelar que o entendimento do processo de construção
co-laborativa do conhecimento cuja ênfase recai em suas origens sociais e
históricas, isto é, num conhecer orientado inicialmente no sentido do coletivo
para o sujeito, não emerge apenas com o amplo uso instrumental das mídias
telemáticas na Educação [...]”.
“Na perspectiva cultural de interpretação do desenvolvimento
humano portanto é a partir das complexas interrelações sociais (microgênese) e
históricas (macrogênese), obrigatoriamente MEDIADAS pelo uso instrumental das
ferramentas e signos ao longo da filogênese (percurso evolutivo
inter-espécies) e da ontogênese (percurso desenvolvimental
intra-espécie), que se criam enfim as condições materiais e imateriais para a co-laboração
das funções psíquicas "superiores" [...]”.
“Os saberes práticos, as (in)formações e os conhecimentos empíricos
e científicos co-laborados e em co-laboração pelo sujeito só podem ser
viabilizados unicamente através da MEDIAÇÃO CULTURAL (ferramentas e signos) -
que interpõe-se necessariamente entre TODAS as suas interações sociais nos
diferentes coletivos (nível interpsíquico) nos quais ele/ela atua e com os
quais dialoga e se relaciona”.
“A prática pedagógica, quando mediada pelas TIC, altera a função
educacional do professor e a sua compreensão do contexto educativo - o qual é
necessariamente (in)formado por diversas outras práticas cotidianas (política,
ética, econômica etc). Essas práticas orientam e deflagram as ações dos
professores e imprimem significados à vida profissional dos docentes. [...]”.
“Alguns obstáculos que se interpõem à prática pedagógica do
professor podem ser: (1) o ensino é interpretado como uma atividade seletiva;
(2) o contexto organizacional desse ensino faz com que os professores
desenvolvam trabalhos individuais e não coletivos; (3) as lógicas de
socialização profissional não acontecem em momentos apropriados ao
desenvolvimento de atitudes reflexivas; (4) as TIC e os materiais didáticos são
gerados a partir de uma lógica hierárquica vertical, [...]”.
“Portanto, as TIC entram na escola como dispositivos técnicos e as
práticas pedagógicas continuam pautadas em velhos paradigmas, apenas com uma
diferença: retira-se a centralidade do professor transferindo-a para as TIC. [...]”.
“[...]Considerar a prática co-laborativa como potencialidade de
reflexões do e para o(a) professor(a) significa compreender que
as questões educacionais são também questões políticas, sociais, culturais etc.
[...]”.
“Considerando que tanto na sociedade como na escola o(a)
professor(a) encontra toda uma série de instrumentos que podem ser
potencializados através da sua prática pedagógica, ele(a) - professor(a) - pode
compartilhar e efetivar mudanças recorrendo à riqueza das práticas
coletivas oportunizadas pelo ciberespaço. [...]”.
“Apesar da grande proliferação de comunidades virtuais de
aprendizado na/em Rede, constata-se ainda, na escolarização, a existência de
resistências e dificuldades de convivência com esta modalidade de
interação/comunicação mediada por computadores interconectados à Internet”.
“A literatura especializada costuma justificar a
"recusa" de educadores e educandos em fazerem uso deste tipo de
ambiente para promoção da atividade co-laborativa atribuindo-a, basicamente, a
três fatores: (1) os sujeitos têm que aprender a lidar com a diferença, o que
sempre é algo complexo; (2) esses ambientes solicitam posturas intelectuais
autônomas e processos co-laborativos de/em grupo (algo que a escolarização
tradicional tem falhado em promover); e (3) as pessoas necessitam apropriar-se
dos recursos informáticos e suportes tecnológicos - o que, para muitos, é algo
novo e ainda distante das suas competências econômicas e culturais”.
“Apesar dos discursos co-laboracionistas
renovadores e dos avanços pedagógicos já alcançados pelo desenvolvimento de
novas práticas de ensino-aprendizado com o uso das TIC, a atividade
co-laborativa permanece sendo um desafio à educação formal em e-coletivos”.
“[...] é só do confronto entre as dimensões formal e informal da
Educação que podem emergir e se concretizarem práticas instituintes
potencializadoras do aprendizado on-line e da atividade co-laborativa”.
“A atividade pedagógica
mediada pelas redes digitais proporciona então a criação de novas práticas
instituintes. Mas, embora a atividade pedagógica instituinte tenha raízes nas
práticas educacionais já institucionalizadas, ao mesmo tempo,
contraditoriamente, apresenta-se como desafio ao status quo . [...]”.
“[...]Promover o auto-aprendizado e portanto o pensamento crítico
do sujeito - no sentido de fazê-lo ir além do senso comum - tem ocasionado, com
alguma freqüência, a emergência de uma nova categoria "estatística"
nos processos formais de EaD: os "evadidos on-line."”
“Cotidianamente vemos
emergir novas CVAs na/em Rede (WEB). Contudo, observa-se que os agrupamentos de
sujeitos mediados pelas TIC tendem a desaparecer com a mesma rapidez com que
surgem. Acredita-se que isso ocorra em razão de, no âmbito desses e-coletivos,
não serem promovidas práticas genuinamente co-laborativas[...]”.
“Sustentar o desejo
para manter e preservar a co-laboração de/em uma CVA exige o exercício contínuo
da autonomia. [...]”.
“[...] Essa dificuldade
em ousarmos ser autores dos nossos próprios enunciados, em nos
"autorizarmos" pode, de fato, estar relacionada ao tipo de educação
que tivemos oportunidade de vivenciar em nossas vidas. [...]”.
“Ao nos
"comportarmos" de acordo com o pensamento único e hegemônico,
acabamos por fazer vingar plenamente, quase sempre de modo inconsciente, em
nossos corpos e mentes, a perversa ideologia dominante da fase neoliberal do
capitalismo na contemporaneidade. [...]” .
“Na configuração
política, social, econômica e educacional excludente atual, típica da
pós-modernidade, a co-laboração em/na Rede pode ser, contraditoriamente, uma
alternativa às tradicionais práticas autoritárias que têm caracterizado as
relações de poder nas organizações e empreendimentos educativos no capitalismo
tardio”.
“[...] A emergência das
TIC como poderosas ferramentas mediadoras das relações humanas na
contemporaneidade apenas oferece maior visibilidade à natureza difusa e não
necessariamente escolar da Educação”.
“A co-laboração na/em
Rede, sem dúvida, pode contribuir para a emancipação do sujeito engajando-o em
um genuíno processo de construção autônoma de novos conhecimentos e saberes.
[...]”.
“Os sujeitos em CVAs
que promovem a co-laboração são potencialmente pares, co-autores e
co-construtores de inúmeros processos de criação, atuação e significação.
[...]”.
“A co-laboração
portanto implica o desenvolvimento de processos interacionistas que visam
encorajar os sujeitos a atuarem em conjunto para a construção de diferentes
conhecimentos e saberes, enfatizando a co-autoria (DIAS).”
“Os processos
co-laborativos costumam ser permeados por trocas contínuas e pela socialização
de diferentes olhares e argumentações. Neste sentido, não existe apenas um
sujeito que ocupe o lugar de educador ou que detenha a posse exclusiva do
conhecimento; todos se revezam nos papéis de educadores e educandos [...]”.
“A atividade
co-laborativa genuína só pode ocorrer a partir da premissa da interatividade -
interatividade aqui entendida de modo a ultrapassar a relação solitária do
sujeito com as interfaces e seus agentes humanos e artificiais. [...]”.
“Portanto, no sentido
que interessa aqui, a interatividade deve ser compreendida como a possibilidade
de o usuário participar ativamente, interferindo no processo de
ensino-aprendizado com ações, reações, intervenções, [...]”.
“A interatividade assim
entendida - de modo amplo - nos permite avançar pedagogicamente em relação ao
modelo instrucionista do tipo broadcast - que apoia-se em pólos transmissores
para a distribuição unilateral das mensagens à muitas pessoas em diferentes locais,
simultaneamente. [...]”.
“A interatividade e a
interconectividade, possibilitadas e incrementadas pelas tecnologias digitais e
pela cultura da simulação, típica das comunidades virtuais, vêm contribuindo
sem dúvida para a instauração daquela "outra" lógica à qual já nos
referimos, e que caracteriza tanto o fast thinking (pensamento ágil
"multimídico") como o pensamento complexo (ou "conhecimento
hipertextual")”.
“Atuar
co-laborativamente vai além de tomar parte nos desgastados "trabalhos em
grupo" - que tiveram ampla divulgação com a difusão, penetração e
corruptela das idéias renovadoras da Escola Nova nas práticas educacionais
nacionais. [...]”.
“A escola do trabalho [Escola Nova] é a
escola em que a atividade é aproveitada como um instrumento ou meio de educação
[...] A escola nova se propõe, por uma forma de vida e de trabalho em comum, a
ensinar a viver em sociedade e a trabalhar em cooperação”.
“Para Charles Crook, em
nossos intercâmbios habituais com outras pessoas, cotidianamente, constatamos
que (1) a atividade cognitiva é interpretada como um conjunto de sistemas
funcionais , [...] (2) a cognição é “situada”[...] e (3) a cognição possui
caráter social em duplo sentido : os elementos mediadores (signos) se criam e
evoluem a partir de um contexto sociocultural e, inversamente, o uso de signos
e os processos de significação (de construção de sentidos por parte do sujeito)
vinculam-se ao contexto circunstancial das suas/nossas interações”.
“Pode–se afirmar, sem
receio, que a atividade co-laborativa atua na zona de desenvolvimento proximal
(ZDP) da comunidade de aprendizado em razão de os participantes do grupo - com
suas singulares competências - auxiliarem-se uns aos outros na qualidade de
membros mais experientes de diferentes círculos de conhecimento e variadas
práticas culturais”.
“O que distingue a
atividade co-laborativa da atividade cooperativa em uma CVA reside na natureza
“híbrida” ou intercultural (provisória) do processo coletivo de construção de
conhecimentos e saberes – o que sem dúvida encontra-se muito além da simples
existência de interação e intercâmbio de informações entre os membros do
grupo”.
“[...] conclui-se facilmente que a atividade
co-laborativa (trabalho colaborativo) pressupõe (1) a formação/promoção de
grupos heterogêneos, evitando-se – sempre que for possível – agruparem-se os
sujeitos reiteradamente com pessoas com as quais ele(a) já mantêm vínculos
sociais; (2) a busca do alcance dos objetivos pessoais e do e-coletivo; (3) a
interdependência não hierarquizada entre os membros do grupo como forma de
incentivo à um genuíno aprendizado”.
“[...] a atividade
co-laborativa (o trabalho colaborativo) pode converter-se em poderoso recurso
metodológico para a implementação de empreendimentos pedagógicos à distância
na/em Rede. [...]”
Adriana Ribeiro Ferreira

Nenhum comentário:
Postar um comentário